O fim de uma era?

(Foto: Fresnobee/Reprodução)


Por Matheus Eduardo. No Twitter: @matheusesouza.

De tempos em tempos, o futebol sempre tem alguma equipe para ser a "referência" para outras, um exemplo a ser seguido, e isto, consequentemente ganha fãs e, é claro, pessoas que tem certa aversão àquilo. Alguns exemplos de equipes que foram tendência por um tempo, são alguns dream-teams que entraram para a história do futebol, alguns vencendo títulos, outros não: a Holanda de 1974, famosa "Laranja Mecânica", de Cruyff, por exemplo não venceu a Copa do Mundo daquele ano, mas fez história com o futebol priorizando a posse de bola, também definido como "futebol total" pelos mesmos. Por que o exemplo da Holanda de 74? Simples, a parte seguinte deste post enfatiza o trabalho continuado desta filosofia de jogo, que ganhou o mundo, principalmente de 2008 pra cá.

Pep Guardiola, Vicente Del Bosque e o "tiki taka" ganham o mundo

O que era o Barcelona até os anos 90? Um clube com alguns títulos importantes, um bom nome dentro da Espanha, mas faltava algo, faltava um grande título na Europa, vencer a Copa dos Campeões, hoje chamada UEFA Champions League era a grande intenção dos culés. Tal sonho viraria realidade pela primeira vez em 1992, ano do primeiro título de Liga dos Campeões da Europa vencido pelo Barcelona sobre a Sampdoria. A mente por trás disso? Johan Cruyff, nome que seria importantíssimo para fazer do clube catalão o que ele é hoje.

Cruyff, que além de treinador, também jogou no Barcelona foi quem implantou o "tiki-taka"  no clube (Foto: FC Barcelona/Reprodução)

Após a saída do holandês, o clube espanhol ficou um tempo sem conseguir o título europeu novamente, mas a seca chegou ao fim em 2006, em uma temporada brilhante com destaque a Ronaldinho Gaúcho, o craque da equipe até ali, e a sequência de jogadores que dali pra frente dariam sequência a um trabalho digno de aplausos e que faria história no futebol. Dentre estes, destaque especial a Xavi Hernández e Carles Puyol, àquela altura titulares no time de Riijkard, além de Lionel Messi e Andrés Iniesta, o primeiro ainda aparecendo para o futebol e o segundo uma espécie de "reserva de luxo". A final daquele ano mostrou um pouco do que era o lema do Barcelona: "mais que um clube", a equipe espanhola conseguiu virar o jogo na segunda etapa e vencer o Arsenal com gol do título marcado pelo brasileiro Belletti. Com este troféu levantado, o Barcelona já somava dois da atual UEFA Champions League em sua história.

21 de julho de 2007. Pep Guardiola é anunciado como treinador do Barcelona para a temporada seguinte à que iria começar. Isto mesmo, só para termos uma noção do quão organizado é o Barcelona, a equipe anunciou o treinador com uma temporada de antecedência, coisa que dificilmente veríamos no Brasil em qualquer época, para não dizer que seria impossível de acontecer. Voltando ao assunto Guardiola, a temporada 2008/09 seria a primeira do gentleman com o clube catalão. Sucesso absoluto! Logo de cara, o Barça venceu o "Troféu Joan Gamper", campeonato de pré-temporada que consiste em apenas um jogo comemorativo, sempre incentivado pelo Barcelona frente a um "convidado", nesta ocasião sobre o Boca Juniors, em vitória por 2 a 1. Só complementando, Joan Gamper foi o fundador do Barcelona, e também do Basel, time da Suíça, país onde também nasceu o fundador do time espanhol.

O decorrer do trabalho de Guardiola mostrava traços que ficariam marcados por toda a sua estadia no clube. O ex-zagueiro implantou no clube uma filosofia diferente, que tinha como base o trabalho de Johan Cruyff nos anos 90, treinador com o qual Guardiola trabalhou. Vindo do Barcelona B, Pep sabia como fazer a transição dos jovens para a equipe profissional, o que explica tantos jogadores formados nas canteras no elenco profissional. Contudo, havia uma lista de fatores que diferenciariam o trabalho do antigo camisa 4 barcelonista dos demais: a posse de bola, a marcação-pressão, as opções de passes em pequenos triângulos, o trabalho em treinamento com um terço do campo, variação de esquema tático, etc. Apesar disso, Guardiola era algo mais: mais que um treinador, ele representava uma figura dentro do clube, um personagem que a cada dia mais ganhava papel de protagonista nesta trama chamada Fútbol Club Barcelona. Com ele, o Barcelona ganhava em espírito, técnica, poder de fogo, e muito mais, algo que talvez só possa ser definido por quem viu o Barcelona de perto.

Lionel Messi e Pep Guardiola, dois dos grandes nomes deste Barcelona que fez história no futebol mundial (Foto: UEFA/Reprodução)


Mas revolucionar o modo de jogar era muito pouco para transformá-lo em um dos grandes técnicos da atualidade, o futebol consagra o bom trabalho dos times através de conquistas, títulos. Com Pep, o Barcelona venceu 14 de 19 títulos possíveis (leia-se títulos oficiais), e somou apenas 19 derrotas em quatro anos pelo clube catalão. Além disso, Guardiola fez do Barcelona um time conhecido pela posse de bola: se contabilizarmos a derrota por 4 a 0 para o Bayern, onde ainda assim o clube teve a bola em seus pés durante 63% do tempo de jogo, são 302 partidas consecutivas em que o Barça tem mais posse da bola do que o adversário, número sensacional para qualquer fã de futebol.

Mesmo com tantas coisas boas no currículo, um dia chega a hora de dizer adeus, e a despedida de Pep Guardiola foi há quase um ano atrás, em vitória por 3 a 0 sobre o Athletic Bilbao e título da Copa do Rey. Com a saída dele, o fim de uma era, a "Era Guardiola", que começou em 2008 e terminou em 2012 foi uma parte da história do futebol sendo escrita, algo para contarmos aos nossos filhos, netos: "Eu vi o Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta, e principalmente, de Pep Guardiola jogar".

Toda mudança tem uma consequência. O "reinado" do Barcelona chegou ao fim?

Com a saída de Guardiola, muita coisa mudou. A filosofia barcelonista não mudou, e o seu auxiliar técnico, Tito Vilanova se tornou o novo treinador do clube, porém como já foi dito no subtítulo, toda mudança gera uma consequência. A do Barcelona foi severa, a equipe perdeu um pouco de sua identidade com a saída de Guardiola, ainda que a recuperasse aos poucos, e foi sentido da maneira mais forte possível, com a equipe perdendo a Supercopa da Espanha para o Real Madrid com erro grotesco de Victor Valdés no primeiro jogo. Sem Pep, o Barcelona enfrentou o rival merengue por seis vezes na temporada atual e só venceu em uma ocasião (três derrotas e dois empates). Sem o antigo treinador, o Barcelona perdeu a qualidade nos passes curtos e no famoso "tiki-taka", além da marcação-pressão, que inicialmente com Tito inexistia.

Sequência do lance em que Valdés falhou e Di María marcou para o Real Madrid, reflexo da insegura defesa do Barcelona (Foto: Sport/Reprodução)


O tempo passava, e a adaptação ao novo estilo era amarga, ainda que com o avassalador início de campeonato espanhol, somando apenas uma derrota nos primeiros vinte jogos. Na fase de grupos da Champions League, a equipe sofria muitos gols bobos, e fora derrotada pelo modesto time do Celtic, ainda que tendo 89% de posse de bola. Faltava algo, faltava a mão de Guardiola nesse time, uma peça que foi perdida e não existe reposição. De início, as falhas catalãs eram abonadas pelos gols de Messi, a qualidade de Xavi e as assistências de Iniesta, mas era pouco. A defesa entregava demais, e comprometia demais o time, o jogo aéreo então, era um desastre! Os confrontos contra o Real Madrid pelas semifinais da Copa do Rey explicitaram as deficiências do clube. Melhor para Varane e Cristiano Ronaldo mostrarem suas credenciais e passarem por cima do clube culé. Na sequência, outro jogo contra os rivais na liga, vencida pelos merengues com times mistos.

Após fragilidades expostas, surge um novo candidato a rei?

Em meio aos problemas na "nova temporada", o Barcelona teve mais uma baixa. Tito Vilanova, para se tratar de um câncer, precisou ficar nos Estados Unidos. Para seu lugar, entrou Jordi Roura, assistente técnico de Tito, que mesmo auxiliado à distância pelo treinador, tinha dificuldades para ajustar o time, tendo em vista que os adversários seriam mais fortes em fase de mata-mata da UEFA Champions League. Contra o Milan, nas oitavas-de-final da competição, a equipe parou na boa marcação italiana e saiu com uma derrota de 2 a 0, mas novamente o "mais que um clube" falou mais alto, e o Barcelona se classificou após aplicar um sonoro 4 a 0 em casa, lembrando o Barcelona de temporadas anteriores.

Após a superação, o adversário das quartas-de-final era o milionário PSG, que tinha em seu elenco jogadores que já conheciam o Barcelona: Thiago Motta, Maxwell e Zlatan Ibrahimovic já passaram pelo clube catalão, enquanto Thiago Silva enfrentava o clube pela segunda temporada consecutiva. Com dificuldades, um empate na França estava de bom tamanho, mas com uma consequência ruim: Lionel Messi deixou o campo lesionado e se tornou um jogador limitado fisicamente até os dias atuais para a equipe. Na volta, o argentino atuou por aproximadamente 40 minutos e foi crucial no gol que levou os espanhóis à sexta semifinal consecutiva.

O Barcelona perdeu o seu "reinado"? (Foto: Tumblr/Reprodução)


"Dependente" de Messi, o Barcelona se arrastava e rezava para poder contar com o argentino nas partidas contra o Bayern, poupando-o dos jogos pelo Campeonato Espanhol. Do outro lado, um adversário com números impressionantes e uma nota interessante: contará com Pep Guardiola, o mesmo que foi essencial para o avanço culé na próxima temporada, e com serviços adiantados: perdeu apenas três jogos nesta temporada, é campeão nacional por antecedência e busca a "Tríplice Coroa" (três títulos em uma temporada só). A partida, ainda que com certa parte do resultado esperada, surpreendeu. O surpreendente contra-ataque voraz bávaro venceu a defesa insegura catalã, que não tinha um Messi com 100% de suas condições e venceu o jogo de maneira fácil. Uma aula de futebol alemã, e me desculpem a frase, mas quatro chicotadas no lombo do Barça. Fez o difícil, que já foi mais complicado parecer simples.

Após a derrota, caíram mitos sobre o Barcelona, e o que, há tempos era incontestado, hoje já levanta dúvidas. Parafraseando Léo, será que o Barcelona é isso tudo mesmo? E mais: será que este Bayern, a cada dia mais poderoso e que ontem mostrou que no futebol não existe nada impossível pode ser, com Pep Guardiola dando seguimento ao bom trabalho de Juup Heynckes o novo time a ser "tendência" no mundo? São questões que só o tempo e a competência dos envolvidos poderão responder.


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