Teste de Fidelidade?

As palavras contidas neste texto são de opinião do autor, sem qualquer relação com o restante da equipe.

Nas últimas temporadas, muito se falava sobre os jogadores que trocavam de clube após revelarem - e até mesmo demonstrarem grande amor ao clube anterior, mas atuando pela mesma liga, o que os levou do céu ao inferno. Exemplos não faltam, Fernando Torres e Robin van Persie que o digam, mas por que o dinheiro, a ambição e a fidelidade se tornaram tão determinantes no futebol nos últimos anos? Por que as ligas, em especial a Premier League, se tornaram esse "teste de fidelidade"? Talvez alguns fatos até mesmo cotidianos possam explicar tal influência.

Cartaz da torcida do Tottenham para Sol Campbell, zagueiro que trocou os Spurs pelo Arsenal, um dos casos de 'traição' um pouco mais antigos (Foto: Agência PA)

Em um trabalho comum, e principalmente no futebol, onde a carreira é curta, a intenção de todos, ou da grande maioria dos empregados é a de vencer, mas nem sempre isso acontece, por mais caprichoso que seja o trabalho feito. O Arsenal nos últimos anos é um grande exemplo disso, e devido à escassez de títulos - não levanta um troféu desde 2005 vem perdendo grande parte de seus principais jogadores. Após o ídolo Thierry Henry, protagonista no título invicto da Premier League de 2003/04, que saíra em 2007 para o Barcelona, todos os principais jogadores do Arsenal de lá até aqui deixaram o clube, com ênfase a dois casos diferentes de ídolos, ao menos até certo momento que trocaram o Arsenal por outro clube "vitorioso" com tratamentos diferentes pela torcida.

Cesc Fàbregas chegou ao Arsenal na temporada seguinte à que o clube foi campeão nacional invicto, e realmente foi uma grande peça do destino o colocar uma temporada após o momento em que ele mereceu estar. Para alguns, o melhor jogador do Arsenal "pós-Henry", o meia espanhol formado no Barcelona iniciou no profissional do clube vindo como uma grande promessa dos reserves (jogadores da base), e como um jogador tímido, que buscava a vaga aos poucos, estreou vestindo a camisa 57 - curiosamente o número de gols marcados por ele com a camisa dos Gunners e, após oito anos em Londres, conquistou a admiração de toda a torcida, mas faltava uma coisa. Faltava vencer, como eu havia citado no parágrafo anterior. Em sete temporadas, Fàbregas levantou apenas dois troféus com o time treinado por Arsène Wenger, ambos na primeira temporada ativa de Cesc com o Arsenal. A consequência? Fàbregas retornou ao clube em que o mesmo apareceu para o futebol, o Barcelona, e por lá ganhou cinco títulos em duas temporadas. Traição? Não, e certamente a maioria da torcida deve querer tê-lo novamente como capitão do Arsenal e vestindo a camisa 4, como antes. Além de tudo, o meia prometeu voltar e se transferiu para o clube ao qual o mesmo torce e já havia jogado antes. A vontade de vencer falou mais alto, mas também houve amor na questão.

Fàbregas foi o grande nome do Arsenal entre 2008 e 2011 (Foto: Bleacher Report/Reprodução)


Robin van Persie e Samir Nasri são dois exemplos diferentes de Fàbregas. Ambos, assim como o espanhol foram contratados jovens pelo Arsenal, mas nunca chegaram a ganhar títulos com o clube londrino, e a insatisfação com tal feito os fizeram mudar de clubes e também mudar várias opiniões em relação às suas respectivas dignidades e valores. O primeiro chegou no Arsenal em 2004 e com a ausência de Henry se tornou o grande artilheiro do clube, até chegar ao seu ápice, na temporada 2011/12, quando o mesmo fechou a temporada como o grande nome da equipe e artilheiro da Premier League, com 30 gols marcados. Era o suficiente? Não! Faltou o título, que esteve longe de vir. A solução foi se transferir para um clube "mais competitivo", segundo ele, no caso, o Manchester United. Mas toda ação gera uma reação, e a torcida do Arsenal reagiu da maneira mais ofensiva possível. A traição tem um preço, e van Persie pagou por isso ao despertar a fúria de milhões de Gunners. Valeu a pena? Talvez para o holandês sim, que até chegou a marcar sobre o ex-clube e não comemorou, em sinal de respeito, mas a história poderia ser diferente se o mesmo permanecesse no Arsenal - ou não.

Cartaz em referência a van Persie, que trocou o Arsenal pelo Manchester United com os dizeres "Judas 20. Ninguém é maior que o Arsenal" (Foto: Warta News/Reprodução)


Já Nasri é uma prova de que a ganância e a ambição em alta escala podem levar uma pessoa ao buraco. Mimado pelos torcedores do Arsenal, o francês recebeu o apelido de "Pequeno Príncipe" pelos londrinos, mas viu seu império ruir ao trocar o amor e a tradição do Emirates Stadium pelo glamour e as promessas do Manchester City. Segundo ele, faltava o troféu que nunca vencera sendo treinado por Arsène Wenger. Certamente não era só isso. A cobiça pelo alto salário oferecido pelo time de Manchester também atraiu o jogador, e mais um caso de traição aconteceu, mas desta vez, quem levou a pior foi o jogador. A primeira temporada, ainda que abaixo da média, lhe rendeu o sonhado título da Premier League, mas certamente não valeu a pena. Um ano depois de levantar a taça e comemorar a inédita conquista, Nasri se lamentava por ser apenas mais um no banco de reservas dos Sky Blues, além de não mais ser convocado para a seleção nacional, e, acima de tudo, criar um ódio infernal dos torcedores de seu antigo clube, onde o camisa 8 era quase uma certeza de sucesso. Se fôssemos avaliar a decisão de Samir como um negócio, o prejuízo seria gigantesco. 

Cartaz dos torcedores do Arsenal a Samir Nasri e também a Gael Clichy. Ambos trocaram o Arsenal pelo Manchester City, e são chamados de "Judas" (Foto: Zimbio/Reprodução)


"Trair" pode ser um ato reversível?

Mudando de cidade, temos mais um exemplo de mudança de tratamento da torcida por um jogador, mas de uma maneira diferente, e talvez inusitada. Passando por um mau momento, o Liverpool vendeu Fernando Torres, àquela época o grande atacante da equipe para o Chelsea por £50 milhões, no que foi a oitava maior transferência da história do futebol. Mas o preço pago pelo camisa 9 espanhol foi ainda mais alto. Com a chegada a Stamford Bridge, Torres foi do céu ao inferno. Passar meses sem marcar era algo normal para o "El Niño", assim como as constantes críticas e cobranças. De um lado, um Chelsea que cobrava dele cada vez mais, de outro, um Liverpool dividido quanto aos seus valores. Parte da torcida o considerava um traidor, enquanto outra parte, em meio à decepção com o novo atacante Andy Carroll, sonhava com o retorno do matador. Mas as coisas não são tão fáceis assim, e Torres, ainda jogador do Chelsea, sonha com dias melhores, seja sob o comando de José Mourinho ou novamente com o time da Cidade dos Beatles, ao qual o espanhol já manifestou o desejo de voltar uma vez, e disse também chorar sempre que vê seus vídeos com a camisa dos Reds. Será que a torcida do Liverpool o receberia mais uma vez? A história de amor com Gerrard e a torcida dificilmente seria a mesma, mas talvez exista um caminho de volta.

Fernando Torres (dir) enfrentando Steven Gerrard, jogador que por muitos anos foi seu companheiro de Liverpool (Foto: FIFA/Reprodução)

Na vida, toda decisão tem as suas consequências, e o futebol vem mostrando a todos como isso ocorre com enorme frequência. O amor e idolatria dos fiéis torcedores, ou os títulos e o glamour? São escolhas que só o tempo e o futebol dirão se foram feitas da maneira mais correta.

Comentários