O gigante acordou?

Özil chega ao Arsenal como uma contratação diferente das habituais apostas de Wenger: uma garantia de qualidade, que chega para se referência, por preço alto. Vale o investimento? (Foto: 101 Great Goals/Reprodução)


Dinheiro traz felicidade? Talvez não, mas com certeza pode trazer prestígio, e como pode! Que o diga Arsène Wenger, que nunca abriu tanto o bolso como nesta janela de transferências, e vê o seu investimento - altíssimo, diga-se de passagem - render bons frutos logo de cara. Mas será que foi apenas a compra de Mesut Özil, pela bagatela de 50 milhões de euros o grande motivo para o Arsenal deslanchar e surpreender a muita gente neste início de temporada? Creio que a resposta vá muito além disso.

Voltemos no tempo, mais precisamente numa época que muitos torcedores do Arsenal adoram relembrar. A temporada 2003/04 foi muito mais do que apenas um ano do futebol europeu para os Gunners, mas também um marco histórico. Naquele intervalo de tempo, o clube de Londres, já há alguns anos treinado por Wenger vencia a Premier League de maneira invicta, como jamais visto na história da competição até hoje. Capitaneado por Patrick Vieira, o time dos Invicibles, os invencíveis, ganhou a admiração de amantes do futebol e a idolatria dos torcedores do clube, em especial com Thierry Henry, maior artilheiro da história do clube. E o que isso tem a ver com o momento atual? Simples, naquela época, o time tinha uma grande referência, e com Özil, os torcedores novamente voltam a ter alguém em quem depositar essa esperança, ainda que guardadas as devidas proporções para evitar decepções futuras.

Verdade é que hoje o time de Londres atravessa outra realidade em relação à que vivia dez anos atrás, quando iniciava a caminhada rumo a uma das melhores, ou talvez a melhor temporada que já vivera. Com o espírito do lendário estádio Highbury, a parte vermelha do norte da capital inglesa vivia em êxtase a cada partida, e, com o tempo, esta atmosfera se desfez. Hoje, tendo como "lar" o moderníssimo Emirates Stadium, o Arsenal tenta reconstruir este elo com a torcida e até mesmo com o time, que parece retornar aos poucos, ainda que não seja nem de perto o já visto em Highbury. Além do "fator casa", a experiência de Arsène Wenger, ainda que por vezes contestado pela torcida é um motivo determinante para acreditar em um algo mais até o fim da temporada, ou num trabalho mais estendido, a longo prazo. Terceiro nesta lista, mas provavelmente o fator mais importante, a qualidade e força do elenco, agora bastante fortalecido, ainda que pecando na ausência de mais um zagueiro, quem sabe, é uma qualidade à parte, detalhada no próximo parágrafo.

Há muito tempo, ouve-se reclamações da torcida - exigente - do Arsenal pela ausência de um grande jogador no meio, de renome internacional. No ano passado veio Santi Cazorla, que foi nomeado o grande jogador do clube na temporada, mas não era o suficiente, faltava alguém à altura da instituição que seria representada, com todo o respeito e admiração ao espanhol, que inclusive é um jogador excepcional. Escutado o desejo, Wenger, enfim saciou a sede dos Gunners e trouxe um presente de aniversário, natal e outras datas especiais, Mesut Özil. O cara! E se dizem que uma coisa boa traz outras, o ditado é verídico. Após séria lesão há mais ou menos dois anos, Aaron Ramsey enfim desencantou e vem jogando "o fino da bola", seguido da excelente série de meio-campistas do plantel, do antigo conhecido Mathieu Flamini à promessa querida do clube, Jack Wilshere. Na frente, um atacante que não pode reclamar por falta de auxílio. Olivier Giroud, antes contestado, agora agarra - ou finaliza - todas as oportunidades que recebe, e o tem feito de maneira espetacular. Enfim, o francês pode fazer uma temporada, em números parecida às que já fizeram um dia pela mesma camisa Robin van Persie e até mesmo o ídolo Thierry Henry. Na defesa, ainda que passando por momentos de instabilidade, o time se comporta bem, e assim o time vem se mantendo nos últimos anos, no que talvez seja a única grande preocupação em todo o time, e que deve se manifestar no correr da temporada.

No entanto, todo cuidado é pouco. Se a temporada vem sendo um sucesso, vale lembrar que o perigo mora ao lado, seja ele ao norte, oeste, leste ou sul de Londres, da Inglaterra ou da Europa. Na Premier League, o time engata uma série de cinco vitórias consecutivas, mas não pode se esquecer que estreou perdendo dentro de casa, e que passando por um dia ruim, os erros podem voltar a aparecer. Na Champions League, o alerta tem de estar sempre ligado, tendo em vista o "grupo da morte" em que o time se aloja, mesmo que em uma situação, em tese confortável. No entanto, o clube norte-londrino nunca foi campeão europeu, e a tentação por algo inédito sempre fala mais alto. Ainda assim, vale ressaltar que no futebol, nada é para sempre, e Wenger, assim como a torcida e os atletas do Arsenal precisam estar atentos quando a oscilação chegar. O problema não vai ser ela acontecer, mas sim como o clube vai enfrentá-la.

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