Daniel Alves já não é mais o jogador that we used to know. Mas existe uma explicação lógica para isso


A carreira de um jogador de futebol tem bons e maus momentos, e isso não é novidade para ninguém. Para Daniel Alves, o momento não é dos mais favoráveis, e já está assim há algum tempo. No último dia 24, na vitória do Barcelona sobre o Manchester City, dentro da Inglaterra, o lateral-direito foi substituído após sofrer uma falta e esbravejou ao sair de campo. O fato resume o que é a realidade do brasileiro nos últimos 2 anos, ou talvez em um intervalo de tempo maior do que esse.

Como nada acontece por acaso, esse declínio do último camisa 2 do Brasil em uma Copa do Mundo tem uma justificativa plausível - acredite se quiser! -. Para entender um pouco melhor essa situação, é necessário voltar no tempo, mais necessariamente nos momentos áureos do defensor baiano. Alguns anos atrás, em meados de 2006, ainda com a camisa do Sevilla, "Dani", como é carinhosamente apelidado pelos espanhóis, dava seus primeiros passos rumo à glória, com o bicampeonato da Liga Europa da UEFA, além de outras competições nas quais este teve notório destaque. Nesse meio-tempo, suas assistências e a técnica refinada chamaram a atenção do poderoso Barcelona.

Com o fim das especulações, Daniel chegou ao Barcelona, juntamente com o treinador Pep Guardiola. Um marco na carreira de ambos, especialmente na do ex-jogador do Bahia. Aqui começa a explicação para a ascensão e, principalmente, para o declínio do lateral mais estiloso do planeta. Com Pep, Daniel encontrou um paraíso à sua disposição, ao menos na parte futebolística. No popular "tiki taka", o time mais famoso da Catalunha ganhou o mundo, e um dos grandes trunfos era justamente o posicionamento do camisa 2. No esquema 4-3-3, o time era baseado no princípio de ter em seu time titular um lateral ofensivo e outro defensivo - Abidal -, com a finalidade de obter um equilíbrio e não deixar o time exposto ao ataque adversário. Nessa temática, coube a Daniel a função de ser o jogador que atuaria pelo lado do campo com função técnica e tática de contribuir com os homens de frente. E assim surgiram os momentos áureos do jogador tupiniquim, principalmente através de triangulações com Messi e Xavi pela direita e as inúmeras assistências no período denominado "Era Pep", entre 2008 e 2012. 


Taticamente, este era o Barcelona na última temporada sob o comando de Pep Guardiola (2011/12). Alterações em relação à "escalação oficial", adaptadas à função de Daniel Alves. Atenção ao recuo de Abidal, como terceiro zagueiro e ao posicionamento de Dani, inicialmente lateral-direito (Desenho: Blog Twelve Point Sports)





Com o passar do tempo, o Barcelona fez o seu jogo fluir tendo Dani como uma válvula de escape pela direita, apoiando os atacantes e servindo-os, à medida que o volume de jogo crescia - especialmente com Messi -. Não por curiosidade, Daniel Alves é o jogador que mais assistiu gols do craque argentino. No entanto, todas as virtudes e o grande repertório ofensivo do camisa 2, em meio a esse esquema muito bem arquitetado para explorar virtudes, maquiava um defeito muito relevante apresentado pelo lateral brasileiro. Embora fosse o cara nas subidas ao ataque, Alves deixava muito a desejar em aspectos defensivos, especialmente na marcação e na cobertura do seu lado de campo. Isso é tão explícito que, como observado na imagem acima, é necessário que um dos zagueiros faça a cobertura pelo seu lado, enquanto Busquets, volante de origem, é recuado para proteger a linha defensiva, e o até então lateral-esquerdo Abidal torna-se zagueiro pelo seu lado. O plano deu certo por 4 anos, mas já dizia uma música conhecida: "todo carnaval tem seu fim".

Daniel Alves e Messi: uma dupla que sempre apresentou um grande entrosamento. Antes, com Pep e agora com Luis Enrique, posicionamento e troca de passes em um ritmo absurdo. Dani também é o jogador com mais assistências para o argentino 4 vezes Melhor do Mundo (Foto: Reprodução/Fox Sports)

Com a saída de Guardiola, um novo técnico chegou. Tito Vilanova, que era auxiliar de Pep no comando do clube blaugrana, assumiu o cargo de treinador. Junto com ele, a primeira de muitas mudanças: Abidal, antigo dono da lateral-esquerda, foi tratar-se de um câncer e deu lugar a um novo contratado, o espanhol e ex-jogador de La Masia, Jordi Alba. Com as novas peças, novas mudanças aconteceram, especialmente com Daniel. O antigo esquema, com o lateral-esquerdo tornando-se um terceiro zagueiro, não existia mais. O time, até então, preparado para manter a segurança de sua defesa, precisou se expor e obrigar jogadores menos qualificados a trabalharem de maneira defensiva. O grande atingido nessa história? Ele mesmo, nosso lateral brazuca! Com a obrigação de marcar e cobrir os wingers adversários, o camisa 2 sofreu bastante com as jogadas no mano a mano e protagonizou um momento de extrema fragilidade defensiva do Barcelona em meio a uma temporada de adaptação a um estilo de jogo novo e um treinador que passava por problemas profissionais e pessoais. O resultado dessa peleja toda foi um traumatizante 7 a 0 no placar agregado contra o Bayern de Munique pela Liga dos Campeões da UEFA, lá na temporada 12/13, onde Dani Alves bateu de frente com Franck Ribéry, o terceiro melhor jogador do mundo naquele momento.


Para quem pensa que a explicação para por aqui, deve se perguntar também qual é o motivo pelo qual Daniel não é mais o cara das assistências e dos gols de fora da área como em outros momentos. Mas isso também tem uma explicação. Assim como na temporada com Tito Vilanova, nos anos seguintes, com treinadores diferentes, o Barcelona não conseguia encontrar um padrão de jogo, como o mantido até 2012. Sob o comando de Tata Martino, na temporada passada, questionou-se muito em como o time não tinha um bom trabalho conjunto e também em como o estilo de jogo mudou, cessando também o ponto forte do time na "Era Pep", com muitas infiltrações e entradas com passes curtos. O fato é que esta era a grande arma do Barcelona para marcar tantos gols de maneira rápida e letal, e assim Daniel geralmente deixava seus parceiros de time na cara do gol várias vezes. Com os novos treinadores - incluindo o atual técnico, Luis Enrique -, o estilo de jogar se alterou bastante, e o grande repertório de passes rápidos e curtos foi trocado por uma série incessante e tediosa de cruzamentos para a área, geralmente inutilizados. 

Desenho tático do Barcelona na atual temporada, em partida contra o Atlético de Madrid, seguindo adaptações que vêm desde a temporada com Tito Vilanova: Alba e Alves nas laterais, time ofensivo e defesa exposta. Busquets complementando o quarteto defensivo para não expor tanto o time. Daniel avança, mas tem a obrigação de acompanhar o winger esquerdo do time adversário (Desenho: Barça Blaugranes)

Além disso, muito se questiona sobre a capacidade de finalização do lateral-direito, uma arma letal durante seus bons momentos por Sevilla, Barcelona e Seleção Brasileira. Especialmente no período pós-Guardiola, essa virtude deixou de ser tão utilizada e eficaz como em outros tempos, possivelmente coincidindo com a queda de rendimento já explicada no parágrafo acima. Além disso, tem muito a ver com o estilo de jogo do Barcelona, especialmente, além da maneira como o time buscava criar espaços no campo de ataque. Geralmente, com Xavi e Iniesta na distribuição do jogo, havia muita triangulação, passes rápidos e bastante movimentação quando o time catalão estava no campo de ataque. Com isso, sobrava espaço para o elemento surpresa do esquema em questão (no caso, Daniel Alves) aparecer em lugares inesperados e encontrar espaço para o arremate, algo que deixou de acontecer com tamanha frequência após a instabilidade de treinadores no Camp Nou.

Com Guardiola, Daniel Alves viveu seus melhores momentos pelo Barcelona, especialmente em assistências. Contando Sevilla e Barcelona, o brasileiro soma, até a data atual, 92 assistências na história da La Liga. À frente dele apenas três jogadores: Xavi (95), Figo (105) e Messi (106)  (Foto: Reprodução/Sim Notícias)

Tendo falado tudo isso, penso que é necessário paciência e até um pouco de racionalidade em relação às críticas à Daniel Alves ou seu estilo de jogo. Além de tudo, há também a questão da idade e, especialmente com um "defensor", o que é sua posição de origem, o tempo às vezes limita a funcionalidade do atleta. Antes de qualquer coisa, é necessário entender que o atual dono da lateral-direita do Barcelona nunca foi um jogador de cacoete defensivo invejável, tampouco que a função que este desempenha hoje é a mesma de 3 anos atrás. Por outro lado, esse momento é, provavelmente, a grande hora para uma mudança de ares. O Barça almeja um jogador com outras características para a sua posição, haja vista a frequência de críticas sobre o brasileiro e ainda há mercado e clubes com estilos diferentes de trabalhar e pensar o futebol. Agora, o ultimato será dado no meio do ano, quando a temporada se encerra e o contrato de Dani Alves com o Barcelona expira. Talvez seja a hora de mudar.




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