Os resultados ruins ainda ficam de segundo plano quando observamos toda a gravidade da situação. Ainda que não seja nenhuma novidade, a cobrança sobre a seleção brasileira, especialmente após o vexame contra a Alemanha, na última Copa do Mundo, aumentou de maneira estratosférica. E pior: não trouxe nenhum resultado em quase dois anos. A tão pedida reformulação no futebol brasileiro, com novidades e evoluções em aspectos táticos e de conjunto, não obteve êxito algum, e isso se deve a uma infinidade de fatores, desde o comando técnico à estrutura geral do nosso futebol.
Apesar dos pesares e, mesmo considerando a necessidade extrema de se criticar diversos fatores de uma das piores épocas da seleção, é importante dosar essas críticas e ter bastante cautela na hora de avaliar qualquer etapa do problema. Em primeiro lugar, existe a necessidade de entender que atuar na seleção e atuar em clubes são coisas distintas, e isso vai interferir de maneira direta no rendimento dos jogadores. Não à toa, tantos atletas que atuam em nível altíssimo por clubes fortes da Europa - cuja qualidade futebolística é consideravelmente superior à do futebol brasileiro - sofrem para se adaptar a um novo estilo quando vestem a camisa amarela, com filosofia distinta (ou quase inexistente) sob o comando de Dunga. Em segundo lugar, deve-se ressaltar a diferença de trabalho no contexto de futebol europeu e no de futebol sul-americano. Nisso, um fator que dificulta, e muito, o trabalho para qualquer técnico de uma seleção forte do nosso continente. Em outras palavras, não é possível se praticar o mesmo futebol do Paris Saint-Germain, do Barcelona ou do Bayern de Munique com a seleção brasileira, nos moldes de jogo da América do Sul. Até com as seleções europeias a missão é complicada, seja pela questão de o trabalho, neste modo, não ser cotidiano, ou até mesmo pela diferença metodológica e de influências nos dois estilos de praticar o esporte.
Indo mais além, alguns acontecimentos dos últimos dois jogos do Brasil nas Eliminatórias podem, e devem ser comentados/criticados. Aí sim, existem questões a se levantar e discutir visando soluções, e não somente para apontar culpados. No empate com o Uruguai, na última sexta-feira, o Brasil fez uma primeira etapa muito boa contra o time de Óscar Tabárez. Tendo Neymar como "falso 9", circulando entre as duas linhas de marcação uruguaias e o tão pedido 4-1-4-1 aplicado no Corinthians - com Renato Augusto como peça-chave - durante a brilhante temporada passada, Dunga conseguiu alguns de seus melhores minutos desde que retornou ao comando da seleção, e abriu dois gols de vantagem para os adversários após 45 voltas no ponteiro. Ali, mais do que em qualquer outro momento, ficou explícita a qualidade brasileira e parte do que se espera quando vemos o time, no papel, escalado. Mas, com a volta do intervalo, o técnico adversário conseguiu encontrar uma solução para a diferença técnica de Neymar, encontrou suporte em erros defensivos do Brasil e arrancou um empate, que poderia se tornar derrota. E aí entrou a questão mais discutida nos últimos dias em conversas de bar: "Dunga não pode ser técnico da seleção brasileira!". E aqui entra mais uma das considerações deste que vos fala.
Dunga é, sim, um treinador de futebol. E ele não forçou a CBF para comandar a seleção, ao menos não até onde sabemos.
Não é a primeira e, possivelmente, não será a última vez que uma crítica ao trabalho de Dunga será ecoada no ar com total concordância. Criticá-lo não é o erro, muito pelo contrário. Mas é importante analisar o que mais se relaciona com isso e se, de alguma maneira, o técnico gaúcho deixa algo de positivo em sua passagem, por menor que seja. Os poucos trabalhos e feitos nesta função, as deficiências táticas, a falta de ideias e o histórico confrontativo pesam, e muito, contra o capitão do tetra-campeonato. Em seis partidas nas Eliminatórias, poucas ideias interessantes postas em prática, e atuações nada convincentes nos jogos onde a cobrança foi maior. Tudo isso pode gerar uma bola de neve que culmine com a demissão dele, que também é defendida neste texto. Mas a preocupação maior é com o que pode acontecer depois disso, com as ideias que podem ser mantidas, alteradas e, principalmente, com quem seguirá o duro trabalho de dar algum rumo evolutivo ao futebol brasileiro.
Não existe nenhuma certeza sobre quem prosseguirá com o serviço. Sonha-se com Tite, que atualmente é o técnico brasileiro com as ideias mais atuais sobre o futebol - ainda mais considerando a mínima possibilidade de se contar com um treinador estrangeiro -, mas pode-se acordar com um técnico que está há muitos anos no mercado sem nada de interessante, vivendo apenas do nome. Exemplos não faltam e não vale a pena citar neste espaço. Críticas também devem ser feitas à administração do futebol brasileiro num todo, através de toda a Confederação Brasileira de Futebol, que caminha a passos de tartaruga para uma melhora no esporte nacional. Além disso, as crises envolvendo figuras políticas da entidade também dificultam a evolução no quesito desportivo.
Contudo, há alguns pontos positivos, e é daí que se impulsiona a ideia de um possível "renascimento" do futebol brasileiro. O trabalho da seleção olímpica, com Rogério Micale (antes técnico do time de base do Atlético Mineiro), há quase um ano, vem rendendo ótimos frutos, bons nomes e ótimas ideias para o futuro. Sua equipe, inclusive, estará nos Jogos Olímpicos (por motivos óbvios) e não será comandada por ele - que ironia, não? -, mas sim por Dunga. Entretanto, a chave para um futebol mais competitivo na equipe principal pode se basear na eficácia do time de categoria inferior, e dar prosseguimento com trabalhos mais bem elaborados dentro do mercado nacional. Aí entra a mão de Tite, principalmente, e outros técnicos que mostraram boas metodologias durante os últimos meses. Roger Machado, no Grêmio, e sua ideia coletiva e de boa marcação; Eduardo Baptista, enquanto esteve no Sport e o excelente trabalho entre 2014 e 2015 no time pernambucano; e até mesmo o recente trabalho de Dorival Júnior no segundo semestre do ano passado com o ofensivo Santos, com muita movimentação e ocupação de espaços no campo de ataque. Ideias não faltam, exemplos também não. Resta saber se existe vontade de inovar ou, até mesmo, adaptar ideias de treinadores estrangeiros que conseguiram feitos interessantes no Brasil, como Diego Aguirre e até mesmo Juan Carlos Osório, agora em boa fase com a seleção mexicana.
A safra de jogadores não é ruim como dizem. Só não vivemos mais uma geração com tantos atletas fora de série.
Uma coisa muito intrigante é utilizarem a justificativa de a seleção ter uma das "piores safras de todos os tempos" para diminuir a qualidade dos atletas. Isso não é verdade. De fato, o futebol evoluiu e o Brasil, com o passar dos anos, deixou de ter tantos jogadores no primeiro escalão do mundo. A geração do final do século passado e do início deste esteve, até certo ponto, "mal acostumada" com tantos jogadores com tamanho desequilíbrio técnico: Cafu, Lúcio, Roberto Carlos, Kaká, Rivaldo, Romário, Ronaldinho, Adriano, Ronaldo e etc. também ajudaram, indiretamente, a criar um mito sobre a seleção brasileira nessa época.
Em consequência da alta qualidade técnica e individual desses jogadores, o Brasil, por muitas vezes, esteve em um patamar mais elevado no futebol de seleções, o que não quer dizer que, necessariamente, houvesse uma equipe tão dominadora assim. Há um bom tempo, o individual se sobrepôs ao coletivo na seleção tupiniquim, e isso pôde ser resolvido em diversas épocas. Com o futebol cada vez mais detalhado, coletivo, tático e estudado, isso tende a diminuir. Alguns anos depois, e sem o brilhantismo dos craques de poucos anos atrás, a seleção sofre por não conseguir "jogar bonito" e, especialmente, por não ter um conjunto. Mas isso não significa dizer que a nossa geração é ruim. Quem pensa isso, com certeza se equivoca. Destaques brasileiros em times de ponta - em variadas posições do campo - não faltam, ainda com a modernidade do esporte muito mais presente em países de fora do que aqui. Nível técnico para se sobressair nesses clubes também não falta. Mas falta convencer o torcedor de que tudo isso é possível quando se veste a camisa da seleção. E aí entra o dilema que modifica o pensamento de muitos torcedores brasileiros.
Oscar, Filipe Luis, David Luiz, Fernandinho, Luiz Gustavo e Daniel Alves são bons jogadores, e isso é inegável. Basta acompanhar meia temporada de futebol europeu - fases individuais e problemas à parte - e se chega a um consenso sobre isso. Mas falta a eles algo que, em outras gerações, foi menos exigido. Falta trazer para o Brasil tudo o que oferecem na Europa. E isso não depende só deles. A questão passa por toda a filosofia de jogo que deve ser montada no Brasil, desde a base, e métodos de jogo mais "modernos" e eficazes, como os partilhados pela Alemanha, que massacrou o Brasil na Copa, ou até mesmo por outras potências futebolísticas atuais, como a França, a Espanha e até a própria Inglaterra, vista como uma seleção arcaica até pouco tempo atrás. E nisso, não há um jogador brasileiro que possa resolver de cara. Nem mesmo o mais desequilibrante Neymar.
Algumas considerações; é preciso mudar!
*Um agradecimento especial aos sites/blogs "Taticamente Falando" e "Painel Tático" pela ajuda com parte do conteúdo contido neste texto.
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| Tite é o mais pedido para assumir a seleção brasileira em uma eventual saída de Dunga. Mas nada garante que a CBF vai querer (e poder) levá-lo. É o melhor nome na situação atual da amarelinha (Foto: Guillermo Legaria/Agência AFP) |
Contudo, há alguns pontos positivos, e é daí que se impulsiona a ideia de um possível "renascimento" do futebol brasileiro. O trabalho da seleção olímpica, com Rogério Micale (antes técnico do time de base do Atlético Mineiro), há quase um ano, vem rendendo ótimos frutos, bons nomes e ótimas ideias para o futuro. Sua equipe, inclusive, estará nos Jogos Olímpicos (por motivos óbvios) e não será comandada por ele - que ironia, não? -, mas sim por Dunga. Entretanto, a chave para um futebol mais competitivo na equipe principal pode se basear na eficácia do time de categoria inferior, e dar prosseguimento com trabalhos mais bem elaborados dentro do mercado nacional. Aí entra a mão de Tite, principalmente, e outros técnicos que mostraram boas metodologias durante os últimos meses. Roger Machado, no Grêmio, e sua ideia coletiva e de boa marcação; Eduardo Baptista, enquanto esteve no Sport e o excelente trabalho entre 2014 e 2015 no time pernambucano; e até mesmo o recente trabalho de Dorival Júnior no segundo semestre do ano passado com o ofensivo Santos, com muita movimentação e ocupação de espaços no campo de ataque. Ideias não faltam, exemplos também não. Resta saber se existe vontade de inovar ou, até mesmo, adaptar ideias de treinadores estrangeiros que conseguiram feitos interessantes no Brasil, como Diego Aguirre e até mesmo Juan Carlos Osório, agora em boa fase com a seleção mexicana.
A safra de jogadores não é ruim como dizem. Só não vivemos mais uma geração com tantos atletas fora de série.
Uma coisa muito intrigante é utilizarem a justificativa de a seleção ter uma das "piores safras de todos os tempos" para diminuir a qualidade dos atletas. Isso não é verdade. De fato, o futebol evoluiu e o Brasil, com o passar dos anos, deixou de ter tantos jogadores no primeiro escalão do mundo. A geração do final do século passado e do início deste esteve, até certo ponto, "mal acostumada" com tantos jogadores com tamanho desequilíbrio técnico: Cafu, Lúcio, Roberto Carlos, Kaká, Rivaldo, Romário, Ronaldinho, Adriano, Ronaldo e etc. também ajudaram, indiretamente, a criar um mito sobre a seleção brasileira nessa época.
Em consequência da alta qualidade técnica e individual desses jogadores, o Brasil, por muitas vezes, esteve em um patamar mais elevado no futebol de seleções, o que não quer dizer que, necessariamente, houvesse uma equipe tão dominadora assim. Há um bom tempo, o individual se sobrepôs ao coletivo na seleção tupiniquim, e isso pôde ser resolvido em diversas épocas. Com o futebol cada vez mais detalhado, coletivo, tático e estudado, isso tende a diminuir. Alguns anos depois, e sem o brilhantismo dos craques de poucos anos atrás, a seleção sofre por não conseguir "jogar bonito" e, especialmente, por não ter um conjunto. Mas isso não significa dizer que a nossa geração é ruim. Quem pensa isso, com certeza se equivoca. Destaques brasileiros em times de ponta - em variadas posições do campo - não faltam, ainda com a modernidade do esporte muito mais presente em países de fora do que aqui. Nível técnico para se sobressair nesses clubes também não falta. Mas falta convencer o torcedor de que tudo isso é possível quando se veste a camisa da seleção. E aí entra o dilema que modifica o pensamento de muitos torcedores brasileiros.
Oscar, Filipe Luis, David Luiz, Fernandinho, Luiz Gustavo e Daniel Alves são bons jogadores, e isso é inegável. Basta acompanhar meia temporada de futebol europeu - fases individuais e problemas à parte - e se chega a um consenso sobre isso. Mas falta a eles algo que, em outras gerações, foi menos exigido. Falta trazer para o Brasil tudo o que oferecem na Europa. E isso não depende só deles. A questão passa por toda a filosofia de jogo que deve ser montada no Brasil, desde a base, e métodos de jogo mais "modernos" e eficazes, como os partilhados pela Alemanha, que massacrou o Brasil na Copa, ou até mesmo por outras potências futebolísticas atuais, como a França, a Espanha e até a própria Inglaterra, vista como uma seleção arcaica até pouco tempo atrás. E nisso, não há um jogador brasileiro que possa resolver de cara. Nem mesmo o mais desequilibrante Neymar.
Algumas considerações; é preciso mudar!
- Em suma, é importante observar com outros olhos a provável troca de comando técnico na seleção que, fatalmente, será influenciada pelo comando da CBF. A entidade, por sua vez, precisa ser reformulada para que haja a tão sonhada "evolução" do futebol brasileiro. As investigações que perduram desde o ano passado já são o início, mas ainda é pouco.
- Um passo principal para ajudar a progredir na maneira de se pensar o esporte aqui é tomar como base o grande centro futebolístico no mundo: a Europa. Absorver ideias, conceitos, práticas, estilos de trabalhar e desenvolver clubes, jogadores e seleções, desde a base e, principalmente, pensar em projetos a longo prazo, são questões essenciais para colocar em prática a evolução do futebol no Brasil.
- É importante que os brasileiros, em geral, entendam que existe uma diferença grande entre o nível do futebol daqui e o futebol jogado no Velho Continente. Isso já ajuda a entender a predileção natural à maioria de jogadores atuando lá, e não aqui, seja pelas adaptações a ideias avançadas da Europa ou pela superioridade técnica que muitos deles naturalmente terão quando comparados aos que atuam aqui.
- Por último, mas não menos importante, é preciso diferenciar necessidade de mudança do "trauma pós 7 a 1". É preciso trocar coisas e evoluir, de fato, mas isso não é sinônimo de apagar tudo o que foi montado e começar do zero em todos os aspectos. Existem coisas e pessoas que podem sim ser aproveitados num novo projeto, e isso é o que precisa ser colocado na maneira de pensar dos brasileiros. O desastre aconteceu, mas a vida continua.
Vídeo feito por Léo Miranda, do blog "Painel Tático", mostrando pontos marcantes no estilo de jogo brasileiro nas últimas duas partidas, nessa Data Fifa. Um resumo da "ilha" que é o conjunto da seleção e as carências coletivas que o time tem. Mais em: http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/painel-tatico/post/brasil-precisa-aceitar-futebol-e-um-jogo-de-ocupacao-de-espacos.html
E se o texto não respondeu por si só, isso não é uma mensagem para defender jogadores, alguma parte da CBF, ou qualquer setor envolvendo a seleção. É o artigo mais opinativo possível sobre como reestruturar uma seleção da enormidade do Brasil, pentacampeão mundial e com tantos mitos, encantos e atrativos por todo o globo. Salve a seleção!
*Um agradecimento especial aos sites/blogs "Taticamente Falando" e "Painel Tático" pela ajuda com parte do conteúdo contido neste texto.


Ótimo texto! Opinativo, mas acima disso, explicativo. Parabéns Matheus.
ResponderExcluirExcelente Texto! Muito esclarecedor e objetivo. Parabéns ao autor.
ResponderExcluirMuito bom, um dos melhores textos se não foi o melhor texto que li sobre futebol ultimamente.
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