Guiados por Cristiano Ronaldo e Griezmann, Portugal e França farão a "Final dos 7" na Eurocopa



Neste domingo, 9 de julho, França e Portugal fazem o duelo mais importante e que encerrará esta Eurocopa. De um lado, uma seleção que chegou à competição entre as favoritas, tanto pelo fato de atuar "em casa" - mesmo tendo apenas um titular absoluto que joga dentro do seu país - quanto pelo crescimento conjunto nos últimos meses. De outro, uma equipe que chegou à Euro com diversas dúvidas, se reconstruiu algumas vezes dentro da competição e, das seis partidas disputadas no campeonato até aqui, venceu apenas uma ao fim de 90 minutos.

Apesar do grande contraste entre as seleções, França e Portugal têm tudo para fazer um duelo bastante equilibrado e disputado em diversos aspectos. Além disso, há também a disputa entre valores individuais das duas equipes. Se os lusos apostam tudo e mais um pouco no poder de decisão de Cristiano Ronaldo, os franceses podem creditar muito do sucesso da equipe - especialmente na fase de mata-mata - ao atacante Antoine Griezmann, que vem de mais uma temporada brilhante no Atlético de Madrid, e agora atravessa um momento de constante evolução na parte derradeira da Eurocopa. Além disso, ele também é o artilheiro desta edição da Euro, com seis gols marcados.

A França "ideal" que não saiu do papel

Treinada por Didier Deschamps, a seleção francesa chegou à fase de grupos disposta a mostrar um futebol ofensivo que, ao mesmo tempo, pudesse trazer um poder de combate muito alto. Isso porque, além de ter muita velocidade e talento em seus jogadores de ataque, o time também possuía uma forte capacidade de recomposição e jogadores que fazem isso muito bem por seus clubes - Payet e Griezmann são excelentes na fase defensiva pelos lados do campo. Contudo, o trabalho não saiu tão parecido ao plano inicial.

Na fase de grupos, houve uma grande expectativa sobre essa equipe, que não conseguiu render o esperado. Em resultados, isso não foi tão nítido, afinal a França conseguiu duas vitórias e um empate e chegou às oitavas de final tranquilamente, como primeiro de seu grupo. Ainda assim, o rendimento do time dentro das partidas não foi o esperado, obtendo muita dificuldade para superar as linhas defensivas dos adversários, e buscando soluções alternativas a cada jogo.

O plano inicial de ter três meio-campistas, com Kanté atrás de Pogba e Matuidi não foi tão proveitoso quanto se imaginava, muito por ter um time que trabalhava pouco as jogadas por dentro, sem tantas trocas de passe, mas sim explorando a intensidade dos atacantes abertos pelos lados do campo. De início, Griezmann e Payet começaram assim. Na estreia, contra a Romênia, o primeiro não conseguiu desempenhar bem a função. O segundo, mesmo que com algumas dificuldades sistemáticas, conseguiu ser o diferencial da equipe na primeira fase da Euro e encontrava espaços para definir jogadas em vários momentos de pouca eficiência ofensiva do time. Deschamps tentou mudar o panorama. Trocou Griezmann por Coman e inseriu outro velocista - Martial - na vaga de Pogba, para retornar ao 4-2-3-1, absorvendo melhor a qualidade de Payet em encontrar espaços. A alternativa durou pouco.

França na estreia: Kanté atrás de Pogba e Matuidi, que buscaram avançar e romper as linhas do adversário; Griezmann, à direita, não conseguiu jogar tão bem. Payet, à esquerda, foi o diferencial (Reprodução: Blog Painel Tático)

Passada a fase de grupos, Deschamps decidiu retornar ao 4-3-3. Com a mesma escalação das estreia, a França passou muita dificuldade contra a Irlanda, especialmente pelas laterais do campo. A fragilidade nos lados do campo, na parte defensiva, fez com que Sagna e Evra sofressem bastante contra os velocistas adversários, e o time tivesse certa inferioridade na defesa. Além disso, Kanté não conseguia ter tanta facilidade na contenção como volante único, tendo a dupla Pogba-Matuidi mais à frente, com a tentativa de marcar à frente. Contudo, com a bola nos pés, a equipe conseguiu descobrir, na segunda etapa, a chave para uma parcial evolução no decorrer do torneio. Grande nome do jogo, Griezmann, autor dos dois gols franceses na virada por 2 a 1 nesse jogo, apareceu fazendo o que sabe de melhor: no terceiro quarto do campo, próximo à área adversária, encontrou espaços na defesa e apareceu em boas condições para marcar mais gols.

A "versão final" francesa; Griezmann como peça-chave do processo

Descoberto isso, o time azul passou a adotar o 4-4-1-1 desde a partida das quartas-de-final, em goleada contra a Islândia. Ali, com muita intensidade e ao seu estilo, a França conseguiu emplacar uma bela goleada e atuou com superioridade, tendo Pogba capaz de romper as linhas de marcação adversárias, além de Griezmann à frente das duas linhas de 4, antes de Giroud, se movendo muito e encontrando espaços para finalizar e auxiliar o centroavante do time. Somado a isso, veio a opção por Sissoko, que gera superioridade pelo lado de campo, tanto na fase ofensiva - com toda a sua rapidez para atravessar o campo - quanto na fase defensiva - com sua capacidade de recompor, correr muito e ajudar Sagna pela direita.

O prognóstico se manteve até aqui. Mantendo o mesmo esquema, com a entrada de Umtiti na vaga de Rami na zaga, em um 4-4-1-1 sem Kanté, a França chegou às semis contando com toda a capacidade técnica de Payet - organizando o jogo desde a esquerda, ocupando o meio e deixando o corredor para Evra -, Griezmann - ocupando espaços no terceiro quarto de campo e entrando na área com muita facilidade para o arremate -, e Pogba, excelente na transição defesa-ataque, dando velocidade e verticalidade ao jogo francês. No novo time, esses três jogadores se tornaram cada vez mais importantes. Além disso, há de se ressaltar a importância tática de Sissoko, que acabara de entrar na escalação desde o triunfo sobre a Islândia.

França com a bola no 4-4-1-1. Evra está no alto da imagem e irá ao campo de ataque contribuir com a amplitude do time, tendo jogo pelas laterais no campo ofensivo; Griezmann entre as linhas adversárias e se movimentando constantemente no terceiro quarto do campo é a peça-chave do sistema

Contra a Alemanha - ainda mais forte que a equipe campeã da Copa do Mundo em 2014, porém, ficaram ainda mais evidentes muitas das fraquezas francesas. Durante o primeiro tempo, uma atuação muito inferior à dos germânicos, que, por muito pouco, não encontraram o gol. Com fragilidades de marcação, a França perdeu o jogo no meio-de-campo, e Matuidi, geralmente ocupador de espaços por ali, não conseguiu executar sua função de maneira brilhante. Além disso, com um volume maior de meio-campistas, a Alemanha conseguiu dominar aquele setor durante toda a primeira etapa e fazer com que a eficiência adversária nos passes ofensivos fosse quase nula. Além disso, as jogadas vindas das laterais também foram um ponto fraco francês naquela partida: Kimmich conseguiu, por muitos momentos, superar Evra e ganhar superioridade ofensiva partindo da direita.

Contudo, o pênalti de Griezmann e a intensidade do time no segundo tempo, que também culminou em um abatimento alemão e consequente queda de rendimento e ritmo, impulsionaram o time de Deschamps, que foi mais intenso, usou bem a velocidade de seus jogadores, a intensidade lateral e as boas entradas de Griezmann, em pontos-chave para que seu posicionamento seja ideal e letal à finalização, levaram o time ao 2 a 0 e à classificação para a final. Embora não seja a França ideal, tampouco a melhor seleção da Euro em quesito de qualidade de atuação, pode utilizar esses pontos a seu favor e pensar na correção dos erros vistos contra a Alemanha para buscar o título em casa.

Em transformação, Portugal tirou tudo o que tinha para avançar


Desde o início da Euro, Fernando Santos já havia definido o seu esquema e maneira de jogar de sua equipe. Sem muito segredo: 4-3-1-2 com a bola nos pés, 4-4-2 sem ela. A estreia contra a Islândia foi a melhor partida portuguesa na primeira fase, e nela ficou bem nítido o que o time queria. Com a bola, muita movimentação entre os três meio-campistas, visando superar as linhas de marcação dos adversários, além de muita amplitude, tendo, além dos meio-campistas e atacantes, os dois laterais bem abertos no campo de ataque. Sem a bola a marcação em linha, com muito poder de recomposição e rapidez.

Assim, Portugal fez um ótimo primeiro tempo contra a Islândia e mostrou um "novo" Cristiano Ronaldo. Não tão individual, desequilibrador como o "salvador" da equipe, devido a diversas questões. Com a idade um pouco mais avançada, o camisa 7 já não usa tanto a velocidade a mobilidade com a bola como em anos anteriores. Não é condutor de bola para quebrar linhas assim no Real Madrid, tampouco com sua seleção. Entretanto, usa em Portugal o que tem de melhor: sua inteligência tática para ajudar o time a coordenar as ações ofensivas - recua e ajuda na construção do jogo - e se move com muita lucidez e intuição, buscando estar no espaço certo para o arremate final. Ao seu lado no ataque, surpreendentemente, aparece Nani - que fez exibições interessantes sem estar em uma das beiradas do campo.

Porém, os constantes erros defensivos, somados a atuações um pouco abaixo da média fazem com que Portugal encerre a primeira fase com três empates - contra Islândia, Áustria e Hungria - e tenha em Cristiano Ronaldo, autor de dois gols e uma assistência no terceiro jogo, um fator de desequilíbrio, apresentando tudo o que foi dito no parágrafo anterior acrescido a toda a sua qualidade individual, inquestionável e seu poder absurdo de decisão.

A seleção avança, e as mudanças continuam. O 4-3-1-2 segue intacto, mas as peças se alteram bastante durante a competição. Pepe, de grandes atuações nesta Eurocopa, com toda a sua capacidade de coordenar a última linha e antecipar jogadas, teve alternâncias entre Ricardo Carvalho, José Fonte e Bruno Alves como seu parceiro de zaga. No meio-campo, apenas João Mário conseguiu se manter na titularidade durante toda a campanha. Como primeiro homem entre os volantes, Danilo Pereira começou o torneio como titular, mas perdeu espaço para William Carvalho. Na semifinal, Danilo recuperou a vaga e, curiosamente, atuou nos dois melhores jogos de Portugal nesta Euro - contra Islândia e País de Gales. Além deles, André Gomes, geralmente o meio-campista por um dos lados, perdeu espaço para a jovem e grata revelação Renato Sanches, que jogará no Bayern de Munique na próxima temporada. À frente, João Moutinho, um dos grandes símbolos desta equipe, perdeu espaço e foi substituído por Adrien Silva na função de ser o último homem por trás dos dois atacantes.

Portugal na estreia contra a Islândia: 4-3-1-2; Danilo iniciando a jogada, com João Mario e André Gomes como meio-campistas pelos lados. Todos eles integrantes da nova geração portuguesa, como Guerreiro, o lateral-esquerdo, que dá amplitude ao time. Novidades são Cristiano Ronaldo ajudando a armar o jogo e João Moutinho de "10", por trás da dupla de ataque (Reprodução: Taticamente Falando)


Guiado por Cristiano Ronaldo e muitos jovens, time lusitano cresceu nas fases finais

Na frente, a expectativa talvez fosse por uma recuperação de Quaresma - que veio muito bem nos amistosos pré-Euro - e um trio ofensivo com Nani e Cristiano Ronaldo. Não aconteceu. Substituto importante durante a competição, o jogador das trivelas, que decidiu o confronto contra a Croácia, na prorrogação das oitavas-de-final, viu o novo esquema minar suas chances de titularidade. Isso também ocorreu devido ao bom encaixe dos ex-jogadores do Manchester United que compõem a dupla ofensiva. Assim foi contra Gales, em ótima atuação de ambos. Cristiano, como sempre, encontrando espaços no momento certo para arrematar e liquidar fatura; Nani com toda a sua mobilidade para "arrastar" os zagueiros adversários.

Contra a França, os lusos terão de repetir o que fizeram de melhor nesta competição para levar o título tão sonhado, para assim conseguirem algo que os faz ter pesadelos até hoje: levar um país-sede à derrota na final. Contra o time de Deschamps - que ataca com mais velocidade e é mais intenso que qualquer um dos adversários que Portugal enfrentou até agora, considerando toda a diferença de Gales sem Ramsey -, Fernando Santos precisará trabalhar muito bem a troca de passes e a circulação contínua e intensa de jogo, apostar em seus laterais para buscar superioridade contra Sagna e Evra e, claro, apostar em toda a capacidade de encontrar oportunidades que Cristiano Ronaldo tem, como o craque que é. Partindo disso, e de todo o diferencial do "CR7" nesse apoio coletivo, a seleção portuguesa tem muitos motivos para sonhar com essa inimaginável conquista.

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