Quando o desempenho fala mais alto que os resultados

(Foto: Paris Saint-Germain/Reprodução)


Luis Enrique chegou ao Barcelona em julho de 2014. Desde então, passou por altos e baixos no clube catalão. Na sua primeira temporada, faturou a tríplice coroa, depois de um ano anterior sem nenhum título - desconsiderando a Supercopa espanhola, vencida sobre o Atlético de Madrid com dois empates, quando o time ainda era comandado por Tata Martino. Porém, desde o fim do mágico ano de estreia, uma série de insucessos e imperfeições seguiram o técnico em seu trabalho no banco de reservas blaugrana.

De carreira mais longa, o espanhol Unai Emery demorou a chegar no seu patamar atual. Com trabalhos consideráveis no Almería, levando a equipe à primeira divisão, em 2007, e no Valencia, fazendo dos morcegos a terceira força no futebol espanhol, entre 2009 e parte de 2012, o comandante teve o nome carimbado entre os melhores na profissão após o excelente desempenho no Sevilla. Chegou à Andaluzia em janeiro de 2013, e por lá ficou até o meio do ano passado, totalizando três temporadas e meia no clube sevilhano. Analisando resultados, um espetáculo: três títulos consecutivos da Liga Europa, além de embates memoráveis com os gigantes espanhóis.

Em comum, Emery e Luis Enrique trazem o estilo mais moderno da "nova geração" de treinadores do futebol: uma mistura entre as escolas de Mourinho e Guardiola, tão revolucionários na tática do esporte desde 2008. Enquanto o português trouxe, ao menos em boa parte de sua carreira, a prioridade à força defensiva e a qualidade extrema nos contra-ataques e transições rápidas, o espanhol sempre priorizou a superioridade sobre o rival através do domínio com a bola nos pés e alta pressão no adversário quando a roubar, para recuperá-la o mais rápido possível. Mesclando ideias, os atuais técnicos do PSG e do Barcelona trilharam um caminho de muito reconhecimento, principalmente nos últimos anos.

Luis Enrique e Unai Emery seguiram linhas parecidas de trabalho, mas agora colhem frutos diferentes pelas suas atuais escolhas 


Não à toa, um bateu o outro de maneira tão afirmativa e discrepante na última noite europeia. O absurdo 4 a 0 do Paris Saint-Germain diante do Barça - apenas a segunda vitória de Emery em 24 confrontos contra este rival - teve um roteiro que, do início ao fim, foi condizente com o trabalho atual dos treinadores das duas equipes. O que foi apresentado pelos dois times já vinha acontecendo, em escalas menores que as do último duelo, há um bom tempo.

Os últimos meses de futebol mostraram coisas diferentes nos trabalhos de Emery e Lucho. Enquanto o primeiro, com o Sevilla, conseguiu potencializar o sistema de jogo e chegar mais longe nas competições nacionais - o que ficou faltando nos anos anteriores -, o segundo apresentou uma queda coletiva notável, especialmente a partir da segunda metade da temporada passada. Voltando pouco mais de um ano no tempo, um confronto entre ambos chamou a atenção. Sem Messi, o time de Luis Enrique foi derrotado pelo Sevilla, que explorou muitas debilidades barcelonistas em questão: espaços deixados nos contragolpes adversários e total desequilíbrio defensivo contra times que trabalham melhor os ataques em poucos toques. Essas foram algumas das características do time blaugrana que, em 2015/16, teve uma série grave de resultados ruins na reta final, mas já mostrava imperfeições mesmo com resultados a seu favor, especialmente quando os integrantes do trio MSN resolviam.

Lance do primeiro gol do Sevilla na vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona, em 2015 (Reprodução: La Liga)

Com Mascherano de volante e Busquets interior esquerdo, essa foi a linha de 4 do Barça, que cedeu muitos espaços ao ataque do Sevilla neste lance (Reprodução: La Liga)
Momento da conclusão da jogada: com todos os 4 defensores preocupados em pegar 3 jogadores do Sevilla, surge o "elemento surpresa" pela esquerda e marca o gol (Reprodução: La Liga)


Ainda assim, o Barcelona acabou campeão daquele Campeonato Espanhol e, posteriormente, faturou a Copa do Rei sobre o mesmo Sevilla, em mais uma das muitas atuações magistrais de Lionel Messi diante do time da Andaluzia - sua maior vítima na carreira (27 gols marcados). O camisa 10 deu 2 assistências, num jogo duro, que foi levado à prorrogação em 0 a 0, mas terminou 2 a 0 para os culés. Entretanto, já era nítida uma melhora coletiva nos times de Emery e uma queda no mesmo âmbito nos times de Luis Enrique. Mesmo com menos qualidade no material humano, o ex-sevilhista conseguiu equilibrar partidas, buscar algumas superioridades e até superar o rival em questão. O mesmo serviu para o Real Madrid em alguns momentos da liga espanhola, quando acabou surpreendido e até superado pelo Sevilla de Unai Emery. 

O calendário virou, e chegamos à atual temporada. Nela, muita discussão quanto a desempenho e resultados. Tendo trocado o Sevilla pelo badalado Paris Saint-Germain, Emery se viu bastante cobrado, tanto para manter a hegemonia dentro da França - o PSG venceu todos os troféus nacionais nas últimas duas temporadas - quanto para remontar a equipe e dar uma nova liderança sem Ibrahimovic. De início, muitas incertezas, derrotas no campeonato nacional, instabilidade na fase de grupos da Liga dos Campeões e desempenho abaixo do esperado.

Cogitou-se até demiti-lo ao fim da temporada, ainda com poucos meses de trabalho vistos. Mas, depois de alguma espera, os resultados começam a ser colhidos, com muito trabalho e aceitação da metodologia de trabalho "Emeryana": posse de bola - já habitual no time parisiense, que possui a segunda maior média percentual de tempo com a bola nos pés, dentre os times das cinco grandes ligas europeias (Espanha, França, Alemanha, Itália e Inglaterra), atrás apenas do Bayern de Munique - e excelentes contra-ataques: recurso que permitiu vencer os últimos dois jogos, diante de Bordeaux e Barcelona.

Verratti (esq.), Di María (centro) e Draxler (dir.). O trio que decidiu o jogo em Paris e deixou o PSG com um pé e meio nas quartas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA (Foto: Paris Saint-Germain/Reprodução)


Com este sistema de jogo, potencializou seus atletas, e vem em grande momento: Matuidi segue cobrindo muitos espaços no campo e somando muito nas fases ofensiva e defensiva da equipe; Verratti, que voltou de lesão nesta semana, fez um jogo absurdo diante do Barcelona, dominando o meio-de-campo, gerindo o jogo por ali, e impedindo Messi e Iniesta de jogar; além de Draxler, Lucas e Di María, tão importantes nos momentos sem a posse de bola, ao fechar os lados e fazer uma pressão forte nos laterais rivais, além de, com a bola, poderem infernizá-los no 1 contra 1 e, por fim, concluírem a jogada com um gol ou assistência. Além deles, há de se destacar o que vem sendo feito com Edinson Cavani: artilheiro da Europa na temporada (34 gols em 32 jogos), e importantíssimo na pressão inicial sobre os defensores rivais e na velocidade para contragolpear e fuzilar metas adversárias.

Lance, que gerou o gol de Draxler, se iniciou em uma roubada de bola de Rabiot em Messi (Reprodução: FS1 Sports Stream)
Momento do contra-ataque parisiense, deixando o quinteto de frente com os três últimos homens do Barça. O único jogador ofensivo do PSG a não participar do ataque é Rabiot (Reprodução: FS1 Sports Stream)
Momento do passe de Verratti e o gol de Draxler. Total facilidade em concluir a jogada (Reprodução: FS1 Sports Stream)

Na contramão disso tudo, vem o Barcelona, que, aos trancos e barrancos, tenta sobreviver na temporada, explorando ao máximo o poder de decisão do trio MSN e de Andrés Iniesta na condução de jogo no meio-campo. Há mais de um ano, o Barça de Luis Enrique traz consigo uma irregularidade fora do normal: pouca elaboração de jogo no campo rival, capacidade baixa de manter a bola à frente para produzir por mais tempo, dependência acima do normal de Lionel Messi como articulador de jogo, além das individualidades dos seus atacantes frente aos adversários, especialmente os que não possuem condições de evitar que a bola chegue aos homens de frente culés.

Contudo, essa insegurança no time de Luis Enrique - que, desde os primeiros meses da temporada, não sabe quem é o titular como interior direito - trouxe desvantagens ao sistema de jogo. Na goleada, o alvo da vez foi André Gomes, que já mostrou não se sentir à vontade naquela posição/função. Essa desvantagem também influenciou no desempenho do time e fez com que outros bons jogadores atuassem abaixo do esperado. E, embora já tenha acontecido outras vezes, nem mesmo os resultados "enganosos", em que o Barça conseguiu superar seus adversários, com o trio MSN decidindo jogos, fizeram com que o time se livrasse do pior em Paris. Não foi a primeira vez que a equipe foi superada nesta temporada - abriu o ano muito mal na Copa do Rei e na La Liga -, mas agora parece ter chegado no ponto mais agravante da situação.

O trio MSN, responsável por 67  - Messi (32), Suárez (25), Neymar (10)  - dos 107 gols do Barcelona na temporada, vem sendo a única solução em partidas de extrema dificuldade coletiva (Foto: Squawka/Reprodução)



Além da exclamativa goleada parisiense, fica a lição de que o trabalho, quando é bem feito, às vezes demanda mais tempo para chegar à plenitude. E fica também o ensinamento de que pouco adianta vencer partidas sem ter muito conteúdo e bom desempenho, porque, apesar de imprevisível, o futebol geralmente traz para o campo a realidade coletiva das equipes, e isso não pode ser ocultado para sempre por qualidades individuais acima da média. Melhor para quem analisa o futebol, e pode ser compensado com o excelente desempenho superando trabalhos irregulares e, muitas vezes, "protegidos" por bons resultados.


Dados: Soccerway, WhoScored e Messi Stats (Twitter)
Agradecimento especial: "O Centrocampismo", "Blog do PVC" e "Blog do André Rocha"

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