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| Tite e o título da próxima Copa do Mundo: adversidades muito maiores que a distância entre técnico e troféu capturada na imagem (Foto: CBF/Divulgação) |
Há pouco mais de quatro anos, o Brasil derrotava a Espanha, que vinha de um título mundial e bicampeonato europeu, e ganhava a Copa das Confederações dentro do seu país. Naquele dia, o Maracanã viu o que talvez tenha sido a partida mais eufórica para o torcedor brasileiro em muitos anos. No segundo semestre de 2013, discursos repletos de entusiasmo e confiança nos jogadores brasileiros ("pode confiar, aqui é Brasil" , lembram?) cresciam aos montes, e a expectativa de sucesso na maior competição de seleções era, a cada dia, maior. O resultado, no ano seguinte, todos conhecemos.
Após o fiasco em casa, a CBF muda de comando técnico duas vezes, Tite chega à seleção e se consagra como o grande responsável por uma melhora de rendimento coletiva, capaz de classificar o Brasil para a Copa do Mundo com quatro rodadas de antecedência nas Eliminatórias - depois da Rússia, país-sede, foi o primeiro a se qualificar. Cenário perfeito, não? E, relativamente, semelhante ao visto com Felipão, quatro anos antes. Chegou após duas trocas de técnico desde a Copa anterior, trouxe bons resultados - ainda que não instantaneamente, pouco tempo depois -, e deu, aos olhos marejados dos torcedores, um colírio a pouco tempo do torneio mais importante disputado por seleções.
Antes de tudo, é muito importante relativizar o que será dito aqui: o texto, em momento nenhum, tem, como ideia principal, comparar os trabalhos de Luiz Felipe Scolari e Tite. Diferente disso, a ideia é mostrar que é preciso controlar os ânimos e diminuir a euforia com o excelente momento que a seleção pentacampeã do mundo passa - com méritos. E há porquês para existir essa moderação em torno do que o Brasil enfrentará no próximo ano.
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| Felipão e Parreira também passaram pela situação do "Oba Oba" com a seleção às vésperas da Copa do Mundo; resultado surpreendeu negativamente (Foto: ESPN Brasil/Reprodução) |
É verdade que o desempenho das equipes de 2013/14 e 2016/17 é completamente diferente, embora envolvam alguns atletas em comum e um protagonista similar em ambas as situações - o craque Neymar. Taticamente, o time de Felipão era muito limitado, e surpreendeu a todos vencendo a Espanha por 3 a 0 na final da Copa das Confederações. Surpresa também foi a série de nove vitórias consecutivas de Tite com a seleção desde que assumiu o comando. Com um coletivo arrumado e peças potencializadas, o ex-treinador do Corinthians surpreendeu e mostrou uma melhora muito maior que a esperada quando este assumiu o cargo de comandante da constelação verde e amarela.
Com todo o histórico de conquistas e respeito imposto sobre os demais adversários através da seleção, o torcedor brasileiro sente que a equipe representante do país chega com muita força em busca do hexacampeonato. Outro fator comum entre 2013 e 2017. E aqui começam as ressalvas. Se, com a "Família Scolari", os problemas foram a acomodação, a falta de repertório e sistema de jogo mal definido, agora o cuidado é com a empolgação antes da hora, com o Brasil superando, ainda, poucos adversários de altíssimo nível. Embora tenha batido a Argentina - coletivamente muito abaixo do esperado - e os notáveis times uruguaio e colombiano - que fazem páreo duro, mas não conseguiram fazer frente ao coletivo brasileiro -, é cedo para cravar que o time de Tite está moldado para ser campeão. E o treinador sabe disso.
O momento pelo qual passamos também serve para exorcizar fantasmas e tirar da cabeça do torcedor rótulos incessantes, que perduraram até o atual técnico da seleção assumir o cargo: falácias como "os jogadores dos últimos vexames não prestam e nunca mais devem ser convocados" ou "a geração é muito ruim". Aos poucos, tudo isso começa a cair por terra. Sete dos 23 convocados para a Copa do Mundo passada têm sido chamados regularmente, e trazem ao time opções muito boas para jogar. Além disso, seis dos possivelmente titulares de Tite possuem 25 anos de idade ou menos: Alisson, Marquinhos, Casemiro, Philippe Coutinho, Neymar e Gabriel Jesus/Roberto Firmino. Pouco argumento para quebrar paradigmas antigos...
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| Time brasileiro postado antes de uma partida na "Era Felipão 2.0": jogadores foram muito mal rotulados após os vexames na Copa do Mundo de 2014 (Foto: Getty Images) |
Se o "trauma" do 7 a 1 começa a se cicatrizar, é bom se manter alerta para os próximos perigos, especialmente nestes meses que antecedem a Copa do Mundo. Para evitar a acomodação - algo que Tite pretende fazer -, os próximos duelos devem trazer uma perspectiva diferente para a seleção brasileira, além de adversários mais qualificados e possibilidades de novos esquemas de jogo, algo que Felipão, por exemplo, não soube trabalhar no intervalo entre o êxtase da final contra a Espanha e as pobres atuações que perduraram entre junho e julho de 2014. Como preparação, os comandados de Adenor ainda devem ter, pela frente, ao menos dois bons adversários: Chile - uma das melhores seleções sul-americanas da atualidade, e única a bater o Brasil nestas Eliminatórias - e Alemanha - de recordações não muito boas. E, além delas, mais uma vez a Argentina de Lionel Messi, em amistoso. Tomara que os resultados não distorçam a realidade.
Como é de sua naturalidade, a tendência é que Tite siga com a mesma firmeza no seu trabalho daqui até o Mundial na Rússia, sem acomodação e "já ganhou". Mas não dá para dizer o mesmo dos eufóricos torcedores, que veem - com muita razão - um time com argumentos e peças capazes de dar a eles a esperada consagração, brecada de maneira cruel (e necessária) pelos germânicos na tentativa anterior. Então, que seja dita a lição: o time de Felipão é muito diferente do time atual, e as expectativas também não podem ser as mesmas. Menos com a imprevisibilidade e o tamanho detalhismo do futebol. É importante confiar no trabalho atual, porém, mais importante ainda, é nunca tentar prever o que não é garantido. Até para não trazer conclusões equivocadas no caso de o objetivo esperado não se cumprir. De todo modo, a ponderação surge como o melhor conselho daqui até junho do ano que vem. Melhor para o Brasil, para o brasileiro e para Tite.



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