![]() |
| Lionel Messi foi o diferencial em mais um jogo decisivo para o Barcelona diante do maior rival (Foto: FC Barcelona/Reprodução) |
O futebol é um jogo de espaços, e isso é inegável. Neste sábado (23), um dos clássicos mais assistidos e esperados do planeta - se não for a unanimidade neste quesito - trouxe à tona essa ideia. Na primeira etapa do jogo entre Real Madrid e Barcelona, o que se viu foram duas equipes com algumas dificuldades para encontrar o gol, em meio a sistemas de jogo que mantiveram o foco em negar espaços à criação do adversário. Mas, antes de falar sobre o que foi a partida e sua essência, é importante detalhar como o dinamismo mudou a maneira de jogar futebol dos protagonistas desta história.
Mesmo com Lionel Messi, que hoje é um especialista em criar chances de gol e armar o jogo desde o grande círculo, o Barcelona sentiu na pele o que é enfrentar uma equipe que tem condições de anular seu sistema de jogo com a bola nos pés e bloquear sua saída de bola desde o campo de defesa. Embora tenha o histórico de formar equipes muito capacitadas em ter o domínio do jogo através da posse e controle com a bola nos pés, o que tem sido observado nessa nova versão do Barcelona - especialmente após perder Neymar e não conseguir repor à altura ou em nível parecido para a posição - é que uma grande ruptura está acontecendo.
Desde a "Era Luis Enrique", em momento que o Barça abandonou o jogo de posição, estilo que teve tanto sucesso com Pep Guardiola, os culés têm trabalhado mais o jogo direto e os contra-ataques com a intenção de os seus atacantes resolverem as partidas. No começo de trabalho de Ernesto Valverde, as mudanças têm sido ainda mais radicais quanto ao modo de jogar do time.
Apesar das tantas mutações, o adversário da vez é uma equipe vacinada neste quesito e que, inclusive, obteve boa parte das suas últimas conquistas nos últimos anos desta maneira. O Real Madrid, especialmente com Zinédine Zidane, tem sido um grande "camaleão" e, dentre suas tantas versões e adaptações para ser o mais competitivo possível, trouxe um modelo inédito para o duelo de dois dias antes do Natal.
Durante 2017, o modelo de equipe, que passou do 4-3-3 [desenho abaixo] que explorava Gareth Bale e Cristiano Ronaldo em diagonal, vindo da ponta, para o 4-3-1-2 [desenho abaixo] (também chamado de losango) - sem o galês, mas com Isco em seu lugar como um "10" que se move muito - tendo seus jogadores de meio e ataque mais móveis para compensar a falta de dois homens abertos à frente, precisou de uma outra remodelação na reta final do ano. Isso porque, com o passar dos meses, o mesmo estilo que foi muito eficaz nas conquistas da Liga dos Campeões e do Campeonato Espanhol, durante o primeiro semestre, acabou fragilizado e superado pelos adversários na atual temporada. E, em busca de um antídoto frente à equipe mais forte do atual Campeonato Espanhol, Zidane travou um novo plano para o clássico.
Voltamos a falar sobre o jogo do fim de dezembro no Santiago Bernabéu, mas agora tendo em vista as tantas mudanças que aconteceram nos últimos tempos entre as equipes que estiveram em campo. Até alguns meses, seria inimaginável um confronto entre as duas potências do futebol espanhol com o 4-4-2 como esquema tático em ambas, mas foi o que aconteceu. O Madrid, com Zinédine, abdicou de ter Isco como elemento criativo na equipe para entrar com Kovacic. A ideia era combater e marcar muito bem todos os jogadores barcelonistas que pudessem jogar e acrescentar com a bola nos pés. Neste plano, Busquets, Iniesta e Messi, especialmente, eram vigiados pelo quarteto de meio-campistas merengues (Casemiro, Modric, Kroos e Kova) em cada uma de suas potenciais ações com a redonda sob controle.
Também, neste plano, vimos Cristiano Ronaldo mais móvel e aberto para atacar - em conjunto com Marcelo e Kroos naquele setor - o espaço defendido pelo lateral-direito do Barcelona - Sergi Roberto. E, com o plano de bloquear os espaços do rival, o Real conseguiu ser superior nos primeiros 45 minutos, apresentando marcação alta, maior vigor físico que o adversário e bloqueando a melhor maneira de o visitante feri-lo - saída qualificada desde trás e Busquets/Messi acionados por dentro. Uma pena que, nesse intervalo de tempo, Cristiano Ronaldo tenha furado uma oportunidade clara e Benzema tenha mandado na trave a chance de mudar o rumo da partida.
![]() |
| 1º tempo de Real Madrid x Barcelona: ambos no 4-4-2, e os movimentos para um se defender do outro em uma etapa sem gols e com poucas chances claras de gol, mas propostas bem trabalhadas no geral |
O plano ia bem, até encontrar Lionel Messi. E aqui entra a parte crucial da história. Se, de acordo com a visão global e social das premiações da Bola de Ouro, o argentino não é mais o melhor jogador do mundo, o futebol jogado indica o contrário. Mesmo em um cenário adverso como o da primeira metade da partida, o Barcelona teve duas chances claras de gol: ambas surgidas em passes dele, com finalizações do brasileiro Paulinho - que, como a opinião pública já tem deixado claro, faz uma temporada surpreendente e excelente quanto às suas capacidades de infiltrador/finalizador e como peça importante na potência física do time para ir de uma área à outra. No apanhado do que é o Barcelona e suas adaptações com Valverde, Paulinho é um dos grandes expoentes. Se o time hoje consegue praticar bem a maneira reativa de jogar e é mais físico, defensivo e combativo à frente, muito se dá pelo trabalho feito pelo camisa 15 e por Rakitic nos trabalhos sem bola e na retomada dela. E, voltando ao que foi a primeira metade do clássico, ambos foram excepcionais neste quesito. O Barça sofreu, pecou e foi abaixo porque não pôde utilizar a posse de bola e o domínio, mas teve neles a maneira para reagir e tentar a competitividade.
Reparem que o texto é quase um pós-jogo, mas traz relações com muito do que tem sido o destino do futebol nos últimos anos. Quem não executa um plano de jogo à risca, cede espaços ao adversário e/ou se desconcentra, acaba perdendo. As últimas finais de Copa do Mundo e Liga dos Campeões, quase sempre, estiveram em nível equilibrado, mas acabaram decididas - se não nos pênaltis - em momentos de leve superioridade de um em relação ao outro, e pequenas falhas dos perdedores, especialmente. No Bernabéu, não foi diferente. O 0 x 3 poderia até induzir a algo mais agressivo, mas não foi o que aconteceu. É que Lionel Messi talvez tenha tirado o foco do que era primordial para o Real Madrid no intuito de superar seu rival - como fez, parcialmente, na primeira metade do jogo. E como já foi planejado para conter esse mesmo oponente em confrontos anteriores, nos quais o mesmo argentino, por desequilíbrios, soube usar de sua qualidade para reverter situações.
Por essas e outras, insisto: Messi é o único jogador no planeta capaz de apresentar tamanha ameaça - Neymar se projeta para estar próximo disso. A quem o acompanha semanalmente, isso não é uma novidade. Mas, aos novatos, contarei um segredo: o camisa 10 do Barcelona e da seleção argentina, desde que atingiu sua plenitude com Pep Guardiola, segue como inalcançável em nível de qualidades individuais e o que pode somar a uma equipe. A prova foi o quanto mudou o clássico. Em números, foram 9 passes que colocaram os companheiros de frente para o goleiro Keylor Navas - 1 deles gerou gol (o com um dos pés descalço, para Aleix Vidal) e outro gerou o lance do pênalti em toque de mão de Carvajal. Fez o gol, na mesma penalidade, inclusive. Além de tudo, as intenções de seus movimentos destruíram o plano madridista, tanto que o primeiro gol surge de uma brecha de espaço dada através da confusão de Kovacic: ou seguia marcando Messi ou ia atrás de Rakitic. Optou pela primeira (a mais cabível no momento, diga-se), e o Barça resolveu no placar.
O futebol e os seus "E se" trazem situações inusitadas. Talvez nada disso acontecesse se Benzema tivesse acertado o gol em vez da trave esquerda de ter Stegen, ou se Cristiano Ronaldo estivesse um pouco mais atrás quando acertou um cabeceio no fundo das redes. Mas, uma coisa supera todas as suposições: se o Barcelona de Valverde, que ainda não traz certezas para um ano e passa por mutações intensas, consegue resolver tantos problemas na temporada - defensivos à parte, em vista da excelente temporada de Stegen e Umtiti -, muito se deve a um gênio argentino.
O recital de Lionel Messi no clássico deste fim de semana: atuação de melhor do mundo
É verdade que CR7 é um jogador excepcional e um finalizador absolutamente decisivo e incomparável no quesito, mas, em mais uma ocasião, foi visto o quanto o diferencial de Messi e suas "multiqualidades" em entender o jogo, controlá-lo, e ser eficaz em todos os aspectos - coletivismo, armação, drible e conclusão - ainda deixam comprovado que, por mais que se façam esforços, ainda não há um jogador capaz de superá-lo em qualidade individual. Talvez não seja um argumento tão direto quanto marcar gols em fases decisivas de Champions League - com todo o respeito e admiração ao craque português -, mas, com um recital como este, fica bem mais fácil entender que o trono de melhor jogador do mundo tem o mesmo representante há muitos anos.
Dados: WhoScored
Flagrante tático: twitter.com/MatheusM633 (aconselho que sigam)





Comentários
Postar um comentário